​Almirante Hermenegildo Capelo

Patrono do Curso de 1964

Hermenegildo Carlos de Brito Capelo nasceu a 4 de fevereiro de 1841, no castelo de Palmela, sendo filho do major Félix António Gomes Capelo e de D. Guilhermina Amália de Brito Capelo. Seu pai prestou serviço em Portugal e no Brasil, tendo sido ferido neste último território. Devido à sua simpatia pela causa liberal, Félix Capelo esteve preso no forte de São Julião durante o governo absolutista de D. Miguel. Hermenegildo tinha três irmãos: João Carlos e Guilherme, que se distinguiram como oficiais de Marinha e Félix que se notabilizou como naturalista.

Hermenegildo ingressou na Marinha, como Aspirante de 3ª classe, em 28 de setembro de 1855, sendo promovido a Guarda-marinha em 20 de junho de 1861. No dia 3 desse mesmo mês largara para Angola a bordo da corveta Estefânia. Esta, em companhia da Bartolomeu Dias, comandada por D. Luís, que mais tarde viria a ser rei, transportavam tropas para a guerra do Dombe. Permaneceu três anos na estação naval da África Ocidental, embarcando em diversos navios. Regressou a Lisboa em 1863, tendo sido promovido a Segundo-tenente em 12 de dezembro desse ano. Passado pouco tempo partiu novamente para Angola, permanecendo na costa ocidental de África até 1869, tendo apenas, durante esse período de tempo vindo passar uma pequena estadia na metrópole, em 1866.

A sua carreira continuou bastante ligada a África, tendo viajado até Moçambique onde levou mantimentos para a expedição ao Bonga, chefiada por Serpa Pinto. Mal regressou a Portugal Continental, voltou a partir para Cabo Verde em 1870, na canhoneira Tejo. A partir desse arquipélago, dirigiu-se para a Guiné, onde participou na expedição destinada a castigar os Papéis pelos ataques que os mesmos faziam às feitorias portuguesas. Nessa expedição, Capelo protegeu, com seis peças de artilharia, o reduto que comandava. Ainda no mesmo local, escapou por pouco de uma explosão de pólvora. Pela sua acção nesta operação foi louvado pelo «valor e disciplina com que honrou o nome português e pelo seu comportamento no dia do combate.»

Após o seu regresso a Lisboa, voltou a partir, em 1872, desta feita como imediato da canhoneira Tejo, com destino a Macau. Foi promovido a Primeiro-tenente em 1 de março de 1874. Regressou a Lisboa em 1875, a bordo do transporte África. Posteriormente passou para o couraçado Vasco da Gama, seguindo nele para Inglaterra, onde foi reparar uma avaria sofrida na barra de Lisboa.

Entretanto começava a desenhar-se a ideia de uma expedição científica à África portuguesa. O seu principal defensor era o responsável pela pasta dos Negócios da Marinha e do Ultramar, João de Andrade Corvo. Outra pessoa que bastante contribuiu para este projecto foi o Dr. Bernardino António Gomes, na época presidente da Comissão Central Permanente de Geografia. Numa época em que os ingleses organizavam expedições ao interior de África, como as de Stanley ou Livingston, sentia-se que deveriam ser portugueses a explorar os espaços que Portugal para si reclamava.

Em 11 de Maio de 1877, foi Hermenegildo Capelo nomeado para organizar dirigir a expedição que deveria explorar os territórios entre as províncias de Angola e de Moçambique, assim como estudar as relações entre as bacias hidrográficas dos rios Zaire e Zambeze. Foi nessa altura promovido a Capitão-tenente, com estava previsto na lei, sem contudo prejudicar oficiais mais antigos.

Partiram para Luanda, a 6 de agosto de 1877. Além de Hermenegildo Capelo integravam também a expedição, Serpa Pinto, oficial do Exército; e Roberto Ivens, um jovem oficial de Marinha. Após uma fase de recrutamento e selecção do pessoal que deveria integrar a comitiva, partiram de Benguela em outubro. Exploraram diversas bacias hidrográficas de afluentes do Zaire e do Zambeze. Chegados a Belmonte, Serpa Pinto separou-se dos seus companheiros, explorando as nascentes do Zambeze, seguindo posteriormente para sudeste, em direcção à costa oriental, tendo atingido a Terra de Natal.

Quanto a Capelo e Ivens, continuaram a exploração de rios em território angolano, regressando a Luanda em 13 de outubro de 1879. Seguidamente viajaram para Lisboa. Em 1881 publicaram uma obra em dois volumes, De Benguela às terras de Iacca, na qual relatam os resultados das suas explorações. Começam por realçar, logo no início do texto, que tiveram sempre presente as instruções que levavam da parte do governo, tendo sido sua prioridade o cumprimento destas ordens. Certamente que esta sua preocupação se prende com a decisão de Serpa Pinto de tentar logo a travessia de uma costa à outra de África.

Em Lisboa, Capelo passou a desempenhar funções relacionadas com a geografia dos territórios ultramarinos. Assim, em 19 de agosto de 1880, foi nomeado vogal da Comissão Central de Geografia. Em 28 de Julho de 1882, foi encarregue de proceder à organização da Carta Geográfica de Angola. Em 19 de Abril do ano seguinte foi nomeado vogal da comissão encarregada de publicar uma colecção de cartas das províncias ultramarinas.

Devido a todo esse envolvimento de Capelo nas questões relacionadas com a geografia das colónias, não é de estranhar que ele tenha sido escolhido para levar a cabo as explorações necessárias para levantamento e execução da Carta Geográfica de Angola. Partiu então, mais uma vez, para Angola, na companhia de Roberto Ivens. Uma descrição bastante completa dessa expedição foi publicada, em 1886, pelos exploradores, numa obra em dois volumes, intitulada De Angola à Contra-costa. Este texto contém os resultados das suas observações científicas, em áreas como a meteorologia, a astronomia, magnetismo, fauna, flora e geologia.

Os exploradores saíram de Lisboa em 6 de janeiro de 1884, no vapor S. Tomé, tendo embarcado posteriormente em Moçâmedes, na corveta Rainha de Portugal, comandada pelo irmão de Hermenegildo, Guilherme. Foram diversas as dificuldades sentidas durante a travessia. Fugas de carregadores, morte dos animais de carga devido à mosca tsé-tsé,  passagem por regiões onde a marcha era bastante difícil e fome são apenas alguns exemplos das contrariedades conhecidas por eles no percurso. Apesar de tudo isto, em 26 de junho de 1885, chegaram finalmente a Quelimane, na costa oriental de África. A 20 de Setembro desse mesmo ano, regressavam a Lisboa.

Após o regresso de Capelo e Ivens ocorreram diversas homenagens. O próprio monarca os recebeu à chegada ao Arsenal de Marinha, tendo agraciado Capelo com a grã-cruz da ordem de Santiago e Ivens com a comenda da Torre e Espada. A Sociedade de Geografia de Lisboa, a Associação Comercial de Lisboa, a Associação Comercial do Porto e o Clube Militar Naval realizaram sessões de homenagem aos exploradores.

A ligação de Capelo a África ainda continuou durante bastante tempo. Por portaria de 31 de janeiro de 1887 foi nomeado plenipotenciário junto do sultão de Zanzibar para acertar a delimitação de fronteiras entre este estado e Moçambique. Em 25 de Julho de 1889 foi promovido a Capitão-de-fragata. Prosseguiu a sua carreira integrando várias comissões destinadas a elaborar estudos sobre assuntos relacionados com a Marinha, tanto em Portugal Continental, como em África ou em Inglaterra. Em 11 de Fevereiro de 1895 foi promovido a Capitão-de-mar-e-guerra.

A sua carreira andou também bastante ligada aos monarcas reinantes em Portugal. A partir de 19 de janeiro de 1882, assumiu as funções de ajudante de campo do rei D. Luís. Em 10 de Fevereiro de 1898 foi escolhido para ajudante de campo efectivo de El-Rei. Entretanto, foi promovido a Contra-almirante em 17 de maio de 1902. Nesta data encontrava-se em comissão especial devido ao cargo que efectuava, pelo que foi necessária uma portaria para o dispensar do tirocínio de embarque necessário para a promoção. Em 2 de Setembro de 1909 passou a 1º ajudante de campo e Chefe da Casa Militar de El-Rei.

Hermenegildo Capelo desempenhou funções bastante próximas de três monarcas: D. Luís, D. Carlos e D. Manuel II. Não é assim de estranhar que estranhar que com a implantação da república tenha decidido terminar a sua carreira. Em 24 de Outubro de 1910 afastou-se do serviço e aproveitou para descansar, após uma carreira recheada de momentos de glória. Faleceu em 5 de maio de 1917. Era então Vice-almirante, posto que atingira em 18 de janeiro de 1906.

Capelo possuía inúmeras condecorações e distinções honoríficas. Além da já mencionada grã-cruz da Ordem de Santiago, foi agraciado com a grã-cruz da Ordem de Aviz, era Grande Oficial da Torre e Espada, possuía as medalhas de ouro de Comportamento Exemplar, medalha de prata de bons serviços e a medalha de cobre de filantropia e caridade. Usava ainda uma medalha de ouro por serviços distintos e relevantes no ultramar, com as seguintes legendas: Exploração da África Austral, 1877-1880 e Exploração através de África, 1884-1885.

António Costa Canas

 

 

Bibliografia

AAVV, Comemoração do primeiro centenário da travessia de África por Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens. Conferências e Comunicações, [Lisboa, Comissão das comemorações do primeiro centenário da travessia de África por Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, [1986].

 COSTA, Vitorino Gomes da, «Vice-almirante Hermenegildo Carlos de Brito Capelo. 1841-1917», Anais do Clube Militar Naval, 1917, pp. 421-440. [Carlos, confirma esta referência!!!] MARTINS, F. A. Oliveira, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, 2 Vols., Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1951-1952.